Estados não usuais de consciência
O trabalho de Stanislav Grof com o inconsciente tem atraído a atenção de estudiosos em todo o mundo. Grof é um dos precursores da psicologia transpessoal que revolucionou os conceitos da ciência de modo geral. Foi chefe de pesquisas psiquiátricas no Maryland Psychiatric Research Center e professor assistente de psiquiatria na Johns Hopkins University School of Medicine, Presidente fundador da International Transpersonal Association, dirige workshops em todo o mundo, bem como programas de treinamento. Recentemente ele esteve no Brasil participando do VI Congresso Holístico Internacional em Águas de Lindóia/SP, onde proferiu seus ensinamentos, esclareceu dúvidas e participou ativamente como palestrante. A seguir um resumo da palestra proferida e do depoimento dado ao QUIRON, por Stanislav Grof, que nasceu em uma pequena cidade da Tchecoslováquia, numa família basicamente ateísta. ... Meus pais se conheceram , quiseram se casar e tiveram problemas, minha mãe era de tradição católica e meu pai, sem nenhum envolvimento religioso. Meus avós maternos acreditavam que a única forma de união "decente", era aquela que acontece dentro de uma igreja. E a igreja local não quis casá-los, depois de julgar meu pai como pagão. Para desfazer aquela confusão, meus avós fizeram uma significativa doação em dinheiro para a igreja e de repente o caminho se abriu, e meus pais se casaram. A situação teve tamanha importância que meus pais decidiram criar os filhos fora de qualquer conceito religioso. Quando crescemos, fizemos nossa opção religiosa. Sou um daqueles casos raros, de alguém que tomou contato com a espiritualidade através da pesquisa científica. Ateísta, entrei para a escola de medicina, onde sabemos não se valoriza muito as experiências místicas. Comecei estudando medicina em um país de ideologia comunista, com treinamento puramente materialista. No colegial, um amigo presenteou-me com o livro "Insights da Psicanálise", de Freud. Primeiro eu queria trabalhar com filmes. Depois de dois dias lendo aquele livro, fiquei tão tomado pelas idéias de Freud que me decidi pela carreira médica. E, à medida que fui me aprofudando nos conhecimentos da psicanálise, mais aumentava meus conflitos internos. Fiquei totalmente desmotivado com o potencial terapêutico da cura pela psicanálise, quando observava a profundeza da psique da alma, antes tão desconhecida. Nem todo cliente era um bom candidato à psicanálise, sem contar a quantidade de tempo, dinheiro e energia, que se depreendia no processo. Eram anos a fio à procura da cura do paciente. Quando cheguei aos Estados Unidos, observei que havia pessoas com mais de 20/25 anos de terapia. Fiquei muito desapontado e pensei - acho que tenho de voltar a trabalhar com filmes, estou no caminho errado com a medicina. Naquele momento , a clínica onde eu trabalhava recebeu uma caixa, com ampolas contendo LSD. A companhia que a enviara fazia o pedido para que fizéssemos uma pesquisa, para perceber se aquela substância realmente oferecia algum tipo de benefício para o tratamento psicológico. A empresa tinha dois modelos prontos a respeito da utilização do LSD: o primeiro acreditava que o LSD simulava estágios psicóticos; o outro, que talvez essa substância representasse uma forma de reeducação bastante inusitada. A idéia era que os profissionais da área de saúde mental, ao experimentarem com o LSD, pudessem sentir em si, os estados que os clientes tinham no cotidiano e, dessa forma, poderiam tratá-los de melhor forma. Fui um dos primeiros voluntários. Meu preceptor era um fanático em eletroencefalografia e parte de nosso estudo era, além de tomar o LSD, em algum momento teríamos que receber a alteração das ondas mentais. Interessado em uma teoria chamada Modificar as Ondas Mentais, eu tinha que concordar que as minhas, fossem modificadas, no meio daquela experiência com LSD. Quando estava no ponto máximo do experimento, no ponto mais intenso do efeito daquela substância, eles me chamavam, para que se fizesse a experiência do monitoramento das ondas cerebrais. Deitado com uma luz estetoscópica na minha frente, de repente me senti como que no meio de uma explosão atômica. Hoje analiso que, o que eu vivi mesmo, naquele momento, foi a luz inicial da minha consciência, que foi catapultada para fora do meu corpo... e em um instante "eu" saí da clínica, saí de Praga e saí para fora do planeta. Minha consciência era o reflexo de tudo que existia no universo. E aumentando a intensidade da experiência com o aparelho, fui voltando ao meu corpo físico. Eu já havia trabalhado antes com o efeito da luz estetoscópica, mas a experiência que eu vivenciava agora, na verdade, não tinha nada a ver porque na realidade, ela foi feita sob o efeito do LSD. Fiquei tremendamente intrigado e interessado intelectualmente, para entender mais sobre o LSD e sobre outros psicodélicos. Entendi então que este era o caminho mais excitante dentro da psicologia e da psiquiatria. Para mim foi uma vida inteira dedicada a este trabalho, não só com os psicodélicos, mas aos trabalhos ligados aos estados não usuais de consciência. Nos últimos 20 anos eu e minha esposa Cristina, nos envolvemos com o trabalho chamado Respiração Holotrópica, que combina respiração intensa, música, trabalho de corpo e, trabalhos com pessoas que entraram em estado não usual de consciência, sem a utilização de psicodélicos nem a respiração intensiva, nem desejaram ter aquelas experiências, mas que vivenciaram aquilo de forma espontânea. Comecei a me dedicar a várias áreas do conhecimento, ligadas aos estados não usuais de consciência, como xamanismo, tanatalogia, parapsicologia, misticismo, ritos de passagem, que me trouxeram experiências fantásticas, nesses últimos 40 anos, tanto em nível profissional quanto pessoal. Além da observação - Eu mesmo experimentei, basicamente, todas as experiências descritas em meus livros, e obviamente esta progressão me levou a mudanças de paradigmas no que se refere à psicologia, psicoterapia e psiquiatria. Tamanha é a diferença da visão de mundo, entre os grupos chamados primitivos, antigos, aborígenes e a tradição tecnológica ocidental. Para essa visão aborígene de mundo, existe a idéia de que esta realidade visível não é a única que existe, há outras realidades paralelas onde existem espíritos, demônios, elementos arquetípicos ou mitológicos, entidades encarnadas, animais de poder e assim por diante. Místicos X materialismo - Experiências mais sutis são formas de patologias, seja na visão dos materialistas, sejam em estados não usuais de consciência. No entanto, são importantes, de tal forma que são criados espaços, para que elas possam ser vivenciadas com segurança e métodos, para se desenvolverem com intensidade. Nesses estados alterados de consciência é que nascem a rica mitologia e a espiritualidade daqueles povos. Estados não usuais de consciência são utilizados por culturas ancestrais para diagnóstico e para cura de diversas enfermidades humanas. Nelas se desenvolvem a capacidade da intenção extrasensorial e estes estágios são reconhecidos também como fonte de inspiração criativa. São costumes citados também por aqueles povos, para coisas práticas e corriqueiras tais como encontrar objetos ou pessoas perdidas ou para localizar rebanhos de animais a serem caçados, inclusive eles desenvolveram cerimônias para aumentarem ainda mais a capacidade de modificar a consciência, com objetivos bastante práticos. Não apenas patolizamos estas práticas como também proibimos a utilização de substâncias ou cerimônias que possam levar à mudança de estados da consciência. Por exemplo, dentro da psiquiatria saxônica não há uma distinção clara entre misticismo e estágios psicóticos. Em geral esta diferença de visão de mundos entre as sociedades tradicionais e a nossa sociedade industrial/ocidental é explicada pela "superioridade filosófica" da nossa visão "limitada" de mundo. Depois de trabalhar 40 anos nessa área do conhecimento, minha opinião sobre esta diferença de visão de mundo tem mais a ver com a enfermidade e com a ignorância da ciência ocidental, em relação aos estados não usuais de consciência. A minha experiência, principalmente com pessoas que têm grande treinamento científico e filosófico que têm Q.I. muito desenvolvido, é que estas , quando em trabalho com estados não usuais de consciência, entram em contato com experiências espirituais e místicas. E, elas não podendo negar a realidade espiritual, começam a se interessar pelas tradições místicos religiosas, tanto no ocidente quanto no oriente.
Comunidade científica - A tanatalogia vem estudando casos de cegueira congênita, em que as pessoas que viveram experiências fora do corpo, descrevem o que acontece na sala de operações ou em outros locais e, quando voltam, descrevem o que viram, as explicações são confirmadas, só que quando retornam ao corpo físico, continuam cegas como antes. Estas experiências continuam sendo negadas pela comunidade científica. O modelo da psicologia e da psiquiatria tradicional está baseado no modelo biográfico - experiências que vivenciam depois do nascimento. E ao contrário, se você trabalha com estados não usuais de consciência, fica impossível, explicar todas as experiências, utilizando este modelo tradicional. Precisamos de um modelo mais vasto, mais amplo, quando trabalhamos com psicodélicos. Comecei pois a pensar em um modelo que levasse em conta todas as experiências que eu percebia com os pacientes, em estados de psicose ou em crises espirituais. Muitas experiências, por exemplo, ocorrem durante uma meditação, que também podem ser descritas, pelos três níveis do modelo que desenvolvi. O primeiro nível está próximo ao modelo da psicologia tradicional, envolve todas as experiências emocionalmente significativas depois do nascimento e que são trabalhadas também pela psicologia convencional. Este é apenas um nível sutil do método que desenvolvi, durante os trabalhos em estados não usuais de consciência peri natal, em que o paciente revive experiências do nascimento, inclusive, com riqueza de detalhes. São experiências que datadas do período de gestação até ao nascimento que puxam um outro nível do inconsciente, que chamamos de transpessoal. Estas vivências podem ficar flutuando entre o peri natal e a dimensão do inconsciente coletivo, tanto histórico quanto mitológico - que transcendem as fronteiras usuais da consciência.
Espiritualidade - Quando se trabalha os sintomas mais profundos como a questão da espiritualidade é reconhecer esta espiritualidade como algo importante e profundo, como parte da psique humana e não apenas uma questão de falta de educação científica. Outra área que temos que modificar nossa percepção é a área da estratégia psicoterapêutica, de mudança. As escolas de psicologia, é raro que uma concorde com as outras sobre qualquer assunto. Cada uma tem uma idéia diferente de como a psique funciona. Não existe nenhuma pesquisa que confirme a superioridade de uma ou outra linha de pensamento. Existe pesquisa, inclusive que confirma que, em todas as escolas psicológicas existem bons e maus terapeutas e que o resultado não depende, em geral, daquilo que o terapeuta pensa que está fazendo. Parece que o que é relevante neste caso é a qualidade do relacionamento entre o terapeuta e o cliente. Quando se trabalha com estados não usuais de consciência, começamos a entender melhor esta confusão e vamos chegar ao que Jung já havia descoberto há anos: o intelecto é parte da psique e que esta é cósmica, abriga tudo que existe. Não podemos entender com o intelecto, como funciona a psique de uma outra pessoa e muito menos tentar consertar o self. Está claro que a cura não acontece devido a uma interpretação brilhante por parte do terapeuta, mas devido a uma relação profunda que acontece dentro do próprio indivíduo. Percebe-se então que nestes estados não usuais de consciência, ele traz aquelas experiências que tenham maior carga emocional para a superfície, para que possam ser transformadas. Para nós os sintomas não são algo a serem descartados, mas na verdade é o que está tentando sair do corpo, da psique do indivíduo. Esta definição desaba totalmente quando entramos em estados não usuais de conciência. Em estado transpessoal você pode ser qualquer tipo de experiência, entre ficar com o ego - a identidade-, até o princípio criador. Podemos nos experienciar como seres mitológicos ou em níveis mitológicos de consciência - onde o ser humano é definido como um campo de possibilidades sem limites. A questão é: somos campos materiais ou esse campo de consciência infinita? |