E S P E C I A L

Homem e Mulher

a marca de uma nova era

 

A mulher representa hoje cinqüenta por cento da força de trabalho mundial. Na década de 70 o mundo como que virou de cabeça para baixo, em todos os sentidos. E as mulheres foram fundamentais na chamada revolução das mentalidades, promovendo um salto quântico capaz de remover velhos conceitos arraigados ao longo da história, inserindo no cotidiano das pessoas, públicas ou não, palavras como solidariedade e partilha. A escritora e ativista feminista Rose Marie Muraro desenvolveu um estudo sobre o desenrolar das eras, em seu livro "Homem e Mulher Início de uma Nova Era", concluindo que a mulher é pedra fundamental para a determinação de novos paradigmas rumo ao terceiro milênio.

Rose Muraro inicia seu livro como se contasse uma história de fadas, onde o feminino e o masculino são os protagonistas e narradores da própria história da humanidade, hoje com aproximadamente 2 milhões de anos de existência. Segundo pesquisas nos primeiros 1,9 milhões de anos, não existia propriamente a supremacia masculina como a conhecemos. Era o princípio masculino e feminino que governavam juntos o mundo. Confira a entrevista de Rose Muraro à Telma Gomes, durante o Congresso Internacional de Holística, em São Paulo.

Seu trabalho - Nos anos 60 eu comecei a trabalhar na Conferência Nacional dos Bispos com a igreja, depois eu vim a trabalhar como editora na Editora Forense, trabalhei na Fundação Getúlio Vargas, depois fiquei 25 anos na Vozes. Foi aí que a gente fez o grande trabalho - e acho que é importante - onde se lançaram durante a ditadura militar as grandes linhas da cultura brasileira inclusive os movimentos sociais mais importantes do século XX: a Trilogia da Libertação, o Feminismo e também o Movimento Holístico. Foi lá também que se lançou a contracultura, o movimento a Teoria do Sistema. Depois o Leonardo Boff resolveu brigar com o Papa, nós fomos expulsos e depois de várias penitências estou agora na Editora Rosa dos Tempos que dirijo e onde trabalhamos com as questões da mulher.

Jornalismo - Não sou jornalista. Eu escrevo artigos para jornais, mas como escritora. Eu sou escritora e editora de livros.

Fim do patriarcado e a derrota da razão - Entendo que a vitória está em seu ápice. No Congresso Holístico falei um pouco da derrota: o índice da bolsa de Nova Iorque está caindo consistentemente e os países neoliberais estão falindo, um atrás do outro. Todos os países da Europa, por exemplo, nove deles já contam com governos de esquerda e todos os países onde há eleição, há uma votação maciça contra o neoliberalismo. Já é o começo da derrota e isso coincide com a entrada da mulher na força de trabalho, que é o pós patriarcado. Tudo isso nos anos 90. Espero também que quando houver eleições no Brasil, se vote contra o neoliberalismo. Todos os países do mundo estão com o índice de desemprego altíssimo e o povo não está tolerando isso. O neoliberalismo não combina com a democracia. Ele tem que ser um sistema autoritário ou então ele fracassa, então os grandes desafios estão sendo colocados nos dois próximos anos - 1998/99, a nível mundial claro. Estamos nos preparando para uma decisão em relação aos valores: a antiga e nova consciência geral; ela reflete um estado interno das pessoas.

A mulher e o fim do patriarcado - O século XXI é o século da mulher. Vários países se preparam para ter mulheres na presidência, inclusive a França e os Estados Unidos. E à medida que a mulher entra como povo, ela muda a estrutura do mercado econômico, porque na medida que os homens fazem grupos que se digladiam entre si, as mulheres fazem redes de solidariedade. Não digo já, mas dentro de uns dez anos, poderemos mudar inclusive a estrutura das bolsas. Quem pensaria nisso, no que está acontecendo agora, há dez anos atrás. O que vai acontecer daqui há uma década é muito mais importante do que o que aconteceu nos últimos anos. Então nós temos que esperar grandes transformações e cada vez mais rápidas.

Mulheres e Homens - Na medida que a mulher e o homem cuidam juntos das crianças, a criança já não vê mais a mulher como lugar do amor e o homem como lugar da lei. Ela vê o amor dividido entre o homem e a mulher e a lei dividida entre o homem e a mulher. Porque enquanto a mulher cuidar sozinha da criança, o menino vai se separar dela porque tem medo da castração, e a menina vai se separar dela porque ela é inferior ao homem. À medida que você tem homem e mulher cuidando juntos das crianças, essa relação opressor/oprimido desaparece. Isso já está acontecendo e tudo que acontecer nesses próximos dez anos é fruto dessa nova relação pluralista e democrática. Então haverá o diálogo e a integração que é a grande semente do novo século.

Fragmentação entre homem e mulher - É esse poder que a mulher não aceita. É esse poder que a mulher quer jogar no lixo. Poder com privilégios é papo da velha consciência, o poder como serviço é papo da nova consciência. Durante dois milhões de anos a mulher e o homem trabalharam juntos na solidariedade, na partilha. Nesses 8 mil anos o homem ficou competitivo e a mulher ficou nos valores antigos. Como a nova consciência é a solidariedade e a partilha, então a mulher já está inserida no contexto, por isso não haverá uma reversão de valores, porque se houver continuamos no mesmo padrão.

Mudança de valores - Está havendo uma mudança inclusive no que diz respeito ao plano monetário. Se o desemprego continuar na tendência que está, ou o dinheiro muda de natureza ou então vai haver uma revolução sangrenta de primeiro mundo, que é um monumento. O povo não aguenta mais tanta exclusão. Hoje não existe mais sociedade de classe, existem os excluídos e os incluídos.

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